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Belo Horizonte,29/08/2025

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OS DEVANEIOS DA MODERNA TEOLOGIA

CRENTE DO PAVIO CURTO

O que Jesus diria ?


CRENTE DO PAVIO CURTO

Vivemos em um tempo curioso:

"Nunca se falou tanto — e nunca se escutou tão pouco."

 Há uma pressa instalada no mundo. Uma agitação invisível. Uma surdez coletiva. Vivemos cercados de vozes — e quase ninguém escutando ninguém . A vida virou uma espécie de feira livre, com todo mundo gritando sua promoção existencial, tentando empurrar ideias, dores, verdades. Mas ninguém compra nada do outro. É só propaganda, é só vaidade.

A escuta morreu. Ou, pior: foi terceirizada para o algoritmo.

Todo dia, centenas de palavras atravessam nossos olhos, nossos ouvidos, nossas telas. Notícias, vídeos, mensagens, orações, gritos disfarçados de memes. Mas o que realmente entra? O que chega até o coração?

Você não ouve mais o amigo. Quem te escuta é o feed, que te devolve exatamente aquilo que você já pensa. E você chama isso de “informação”. Não: é só o espelho do seu próprio ego, polido pela inteligência artificial.

Não é que não haja silêncio. É que o silêncio virou insuportável.

Ninguém aguenta mais cinco minutos sem preencher o vazio com um áudio acelerado no WhatsApp. A gente não escuta nem música inteira. Imagina escutar um ser humano com calma.

Os filósofos antigos já desconfiavam: ouvir não é registrar sons. É se deixar afetar. É admitir que o outro tem o poder de nos atravessar. E isso dá medo. Porque se eu escuto de verdade, corro o risco de mudar. E mudar exige a coragem que quase ninguém tem. É muito mais confortável fingir que ouvi e seguir intacto, com a armadura do próprio eu.

Em Mateus 13 Jesus Cristo contou uma parábola sobre isso. Era simples — como tudo o que tem poder de transformar. Falava de um semeador que espalhava sementes. Algumas caíam à beira do caminho . Outras em pedras. Outras entre espinhos . Poucas, pouquíssimas, em solo bom .

O solo era a alma. As sementes, a palavra. E os ouvidos — os ouvidos eram a porta de entrada para o milagre, ou para a comunicação eficaz nas relações.

Dois mil anos depois, a história não mudou. Apenas os nomes mudaram. 


O solo endurecido:

Distração. Também tem outro nome. Mais bonito, mais atraente: “produtividade”. Você não escuta porque não tem tempo, porque precisa responder, postar, entregar. Mas no fundo é só ansiedade com crachá. São os ouvidos que já acordam com o celular na mão, que escutam mensagens de voz com o dedo no botão de acelerar, que não toleram silêncio e que trocam conversas por notificações. Ouvir se tornou um incômodo. O tempo de escutar foi engolido pela pressa de responder.

O solo pedregoso:

Chamamos de “emoção instantânea”, ou "superficialidade": você ouve, se empolga, até se arrepia… e esquece em três minutos, como quem fecha uma aba do navegador. É quando ouvimos, mas não deixamos a palavra criar raízes. É o tipo de escuta que se emociona apenas por alguns segundos. Gente que ouve o que quer, mas não se compromete com o que escutou. Conversas que tocam, mas não transformam. Relacionamentos que falam muito, mas não dizem nada.

O solo espinhoso:

Ah, esses você conhece bem. Chamam-se “ego”.  É quando há tanto barulho interno que nada mais consegue florescer. Ouvimos apenas o que nos confirma, o que nos agrada, o que reforça nossas certezas. Tudo o que desafia ou confronta é rapidamente rejeitado. O outro é interrompido antes de terminar. A palavra morre sufocada pela nossa necessidade de ter razão.

O solo fértil:

Esse não está nos trending topics. Está em quem se permite calar, em quem não corre para a réplica, em quem não precisa ganhar uma discussão. É quase um milagre laico: o outro fala — e você deixa que ele exista. Sem filtro, sem pressa, sem nota de rodapé mental já preparando a resposta. São os ouvidos que acolhem antes de responder. Que escutam até o fim. Ouvintes assim transformam a palavra em afeto. A escuta em cura.

O problema é que não aprendemos a ouvir porque confundimos ouvir com esperar a vez de falarNos acostumamos a ouvir com pressa. A escutar com medo. A responder antes de compreender. A julgar antes de acolher.

Somos especialistas em monólogos. E analfabetos na escuta.

Talvez, se Jesus voltasse a contar essa parábola hoje, ele dissesse:

" Alguns ouvem como quem desliza o dedo na tela: sem profundidade. Outros ouvem com o coração lotado: não há espaço. Mas há quem ouça com o peito aberto, ainda que machucado. E nesses, a semente floresce." 

A ironia é que todo mundo quer ser ouvido. Mas quase ninguém tem a decência de ouvir. Queremos plateia, mas não queremos palco dividido. Queremos eco, não diálogo.

E aí mora a provocação: talvez o maior barulho do nosso tempo não venha das máquinas, mas da nossa própria incapacidade de calar.

Talvez a verdadeira revolução não seja gritar mais alto, mas finalmente escutar.

Mas, não precisa acreditar em Deus pra entender isso. Não precisa esperar revelação mística. Basta um mínimo de humanidade. Basta aceitar que o outro não é ruído no seu podcast pessoal, mas alguém tentando existir diante de você.

Lao Tsé dizia que “o silêncio é uma fonte de grande força”. Agostinho ensinava que “ Deus sussurra à alma em silêncio”.

E Jesus nos convidava a ter “ouvidos de ouvir” — como se soubesse que muitos escutam, mas poucos escutam de verdade .

Eu sei. Escutar é arriscado. Porque quando você escuta de verdade, se desorganiza por dentro. Mas algo em nós se reorganiza. O outro deixa de ser ameaça e passa a ser ponte. A escuta vira abrigo. E o silêncio, semente de transformação. A gente descobre que não é dono da razão. Que pode estar errado. Que pode precisar mudar. E por isso a escuta é rara: ela fere o ego.

O mundo não precisa de mais palavras. Precisa de mais escuta.

E talvez, apenas talvez, seja ouvindo com profundidade que a gente comece a curar o que ainda nos falta.

Mas se você não se dispõe a se ferir, viverá preso no cárcere mais cruel: o da própria voz ecoando sem fim.


A escolha é sua. Beijos do K.G



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