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“A verdade começou a escapar das gavetas”
SEGURANÇA PÚBLICA

“A verdade começou a escapar das gavetas”

JÚLIO COSTA, presidente da AMAFMG endurece o tom e transforma denúncia em enfrentamento direto à cúpula do alto escalão do sistema prisional mineiro.

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Há momentos em que uma instituição entra em crise. E há momentos em que a própria estrutura do Estado começa a apodrecer diante dos olhos de todos. Minas Gerais parece ter chegado exatamente nesse ponto. O sistema prisional mineiro vive hoje uma deterioração tão profunda que já não consegue mais esconder suas rachaduras atrás de notas oficiais, discursos técnicos e reuniões protocolares na Cidade Administrativa. O problema ultrapassou a incompetência. O que se vê agora é um ambiente descrito por servidores como contaminado por perseguições, blindagens internas, jogos de poder e denúncias gravíssimas convenientemente esquecidas dentro de gavetas institucionais.

No centro desse furacão está Júlio Costa, presidente da AMAFMG, associação que representa agentes da segurança pública de Minas Gerais e que há anos trava uma guerra aberta contra setores do sistema prisional. Júlio não surgiu ontem. Formado pela Acadepol da Polícia Civil em 2001, ainda na gestão de Ângela Pace, ele entrou no sistema após convite do delegado Dr. Karan, então presidente da SOP. Desde os primeiros anos atuando dentro das unidades prisionais, enfrentava não apenas facções criminosas, mas também aquilo que chama de “crime institucionalizado”, praticado por agentes públicos protegidos pela própria máquina estatal.

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Entre 2002 e 2010, atuando na inteligência da Primeira RISP, Júlio Costa participou de operações que resultaram em apreensões históricas de drogas, celulares e até de uma pistola ponto 40 pertencente ao Estado, roubada por um servidor público. Foi justamente nesse período que, segundo ele, começou a perceber algo ainda mais assustador do que o crime organizado nas galerias: a existência de estruturas internas que sobreviviam blindadas pelo silêncio administrativo. A partir dali começou, nas palavras dele, a verdadeira “caça às bruxas”.

A conclusão veio de forma amarga. Não adiantava combater facções apenas dentro dos presídios enquanto o problema também ocupava salas climatizadas da Cidade Administrativa. O inimigo, segundo Júlio, não usava apenas uniforme de preso. Em muitos casos usava crachá, cargo estratégico e influência política. Foi dessa percepção que nasceu a AMAFMG, criada como reação ao massacre de servidores honestos que, segundo a associação, passaram anos sendo perseguidos enquanto esquemas internos permaneciam intocados.

A audiência realizada em Belo Horizonte no último dia 21 escancarou esse cenário de forma brutal. De um lado estava o secretário de Segurança Pública Rogério Greco. Do outro, a AMAFMG, representada pelo presidente Júlio Costa. O processo envolve possíveis crimes contra a honra após anos de cobranças públicas feitas pela associação sobre irregularidades dentro do DEPEN e da própria estrutura da SEJUSP. O que deveria ser apenas mais um embate judicial acabou se transformando numa vitrine involuntária do caos administrativo instalado dentro do sistema prisional mineiro.

Durante a audiência, testemunhas ligadas ao setor de inteligência revelaram situações alarmantes. Um servidor afirmou temer pela própria segurança após descobrir que relatórios investigativos sigilosos teriam sido acessados ilegalmente dentro do próprio setor de inteligência do DEPEN. Os documentos conteriam investigações envolvendo corrupção, favorecimentos, lesão ao erário, possíveis vínculos com facções criminosas e até suspeitas relacionadas ao PCC. O detalhe mais devastador não foi apenas o vazamento. Foi a revelação de que muitos desses relatórios estavam concluídos desde 2025 sem qualquer providência efetiva.

E é exatamente aqui que o discurso institucional começa a ruir. Porque o problema já não é apenas o conteúdo dos relatórios. O problema é descobrir quem decidiu enterrá-los. Quem segurou investigações prontas? Quem escolheu ignorar denúncias envolvendo corrupção e crime organizado? Quem resolveu transformar a inteligência do Estado em mera produtora de documentos inúteis, enquanto servidores honestos eram esmagados por perseguições internas?

A ironia se torna quase ofensiva. O sistema que deveria investigar parece ter se especializado em fingir que não vê. Enquanto policiais penais enfrentam superlotação, violência, déficit estrutural e abandono, parte da elite burocrática do sistema parece mais preocupada em proteger cargos, alianças e sobrevivência política. Minas assiste hoje a um cenário em que denúncias graves caminham lentamente, mas perseguições administrativas parecem correr em velocidade máxima.

Júlio Costa afirma que o sistema prisional vive o pior momento de sua história. Segundo ele, antigos grupos de gestão seguem operando nos bastidores, sustentando uma estrutura baseada em blindagens seletivas, favorecimentos e intimidação de servidores que ousam denunciar irregularidades. O retrato, segundo a associação, é o de um DEPEN sem controle real de gestão, onde muitos já perderam completamente a confiança nas estruturas internas de apuração.

Entre os episódios citados pela associação estão denúncias envolvendo um diretor de presídio supostamente ligado ao crime organizado, movimentações milionárias em contas de servidores do sistema prisional em Juiz de Fora e relatórios relacionados à Unidade de Patrocínio, apontada como um dos maiores escândalos internos recentes. Segundo relatos apresentados, documentos da inteligência mostrariam irregularidades graves, mas praticamente ninguém teria sido afastado. Pior ainda, surgiram depoimentos atribuindo a integrantes do sistema frases como “não vai dar em nada”, numa demonstração quase debochada da sensação de impunidade que parece dominar parte da estrutura administrativa.

A AMAFMG afirma possuir ofícios enviados diretamente à chefia de gabinete da SEJUSP e ao secretário Rogério Greco, contendo anexos com relatórios conclusivos produzidos pela inteligência do DEPEN. Um dos documentos teria sido protocolado em fevereiro e oficialmente recebido apenas quase um mês depois. Tempo demais para denúncias envolvendo corrupção, facções criminosas e possíveis crimes contra a administração pública.

E agora existe um novo ingrediente nessa crise: a imagem pública. No vídeo acima, Júlio Costa , endurece ainda mais o discurso e afirma que não irá se calar diante daquilo que considera um colapso moral dentro do sistema prisional mineiro. O vídeo, que já  circula entre servidores e integrantes da segurança pública, amplia a pressão sobre autoridades e joga luz sobre uma guerra que, até pouco tempo atrás, acontecia apenas nos bastidores administrativos.

Segundo Júlio, tentaram silenciá-lo de todas as formas possíveis. Uso da máquina pública, pressões institucionais, movimentações envolvendo setores ligados à AGE e à própria SEJUSP, além de tentativas de descredibilizar a associação. O efeito parece ter sido o contrário. Quanto mais a pressão aumenta, mais denúncias começam a surgir. E o que assusta não é apenas o conteúdo das acusações. É a naturalidade com que parte da estrutura parece conviver com elas.

O sistema prisional mineiro vive hoje uma situação explosiva. Porque quando relatórios graves desaparecem em gavetas, quando denúncias são ignoradas, quando servidores honestos passam a ser tratados como problema e quando suspeitos seguem blindados por estruturas internas, o colapso deixa de ser apenas administrativo. Ele se torna institucional. E talvez o maior medo de alguns setores não seja exatamente o que já veio à tona. Talvez seja aquilo que ainda continua escondido.

FONTE/CRÉDITOS: Redação Rede Ultra
FONTE/CRÉDITOS (IMAGEM DE CAPA): Redação Rede Ultra

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