Belo Horizonte — A execução de recursos estaduais destinados ao enfrentamento e à prevenção de danos causados por chuvas em Minas Gerais encolheu drasticamente nos últimos dois anos. Dados oficiais do Portal da Transparência indicam que os valores efetivamente pagos dentro da principal ação orçamentária ligada ao tema passaram de R$ 134,8 milhões em 2023 para R$ 5,8 milhões em 2025, uma retração de aproximadamente 96% no período.
O governador Romeu Zema está no segundo mandato à frente do Executivo mineiro. A redução ocorre em um estado historicamente afetado por enchentes, deslizamentos e colapsos estruturais durante o período chuvoso.
A curva da execução
A análise considera valores pagos, ou seja, recursos que saíram efetivamente dos cofres públicos. A evolução anual mostra queda contínua:
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2023: R$ 134.829.787,08
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2024: R$ 41.113.405,70
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2025: R$ 5.875.482,98
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2026 (até fevereiro): R$ 36.146,51
O recuo não foi pontual. Houve redução significativa já em 2024, seguida de nova contração em 2025.
A ação orçamentária analisada reúne despesas relacionadas à gestão de desastres provocados por chuvas, atendimento emergencial a municípios atingidos, mitigação de danos em rodovias estaduais e iniciativas preventivas vinculadas a eventos meteorológicos críticos.
Tragédias recentes ampliam debate
O período coincide com novos episódios de chuvas intensas em Minas Gerais. Em fevereiro de 2026, cidades da Zona da Mata, como Juiz de Fora e Ubá, registraram enchentes severas, com mortes, desaparecidos e centenas de desabrigados.
Após os temporais, o governo anunciou repasses emergenciais de cerca de R$ 38 milhões para Juiz de Fora e R$ 8 milhões para Ubá, destinados à reconstrução e ações imediatas de resposta.
A sequência, queda na execução preventiva seguida de aportes emergenciais, reacendeu questionamentos sobre o planejamento financeiro da política estadual para o período chuvoso.
Execução x previsão orçamentária
Especialistas em orçamento público diferenciam a dotação prevista na Lei Orçamentária Anual (LOA) da execução financeira efetiva. A dotação indica quanto pode ser gasto; a execução mostra quanto realmente foi aplicado.
A redução observada refere-se aos valores pagos. Mesmo que haja previsão formal em lei, a política pública só se concretiza quando os recursos são executados.
No caso analisado, a queda de 96% sugere uma mudança significativa na aplicação prática dos recursos destinados à área.
Prioridade ou reclassificação?
A administração estadual pode, tecnicamente, redistribuir despesas entre diferentes programas ou órgãos. Uma eventual reclassificação contábil poderia explicar parte da redução em uma rubrica específica.
Ainda assim, o dado central permanece: dentro da principal ação vinculada diretamente ao enfrentamento dos impactos das chuvas, a execução financeira diminuiu de forma expressiva.
Em um estado marcado por vulnerabilidade geográfica e crescimento urbano em áreas de risco, o volume de recursos destinados à prevenção costuma ser interpretado como indicador de prioridade governamental.
O pano de fundo climático
Minas Gerais convive há décadas com eventos extremos no período chuvoso. A combinação de relevo acidentado, ocupações em encostas e sistemas urbanos pressionados aumenta a exposição a deslizamentos e inundações.
Em cenários assim, políticas de prevenção, como drenagem urbana, contenção de encostas e manutenção de infraestrutura, costumam ser apontadas como estratégicas para reduzir impactos humanos e financeiros.
A retração da execução orçamentária ocorre justamente em um contexto de maior frequência de eventos climáticos intensos.
Um debate que vai além dos números
O dado financeiro é objetivo: a execução caiu 96% entre 2023 e 2025 na ação analisada.
O debate político é inevitável.
Orçamento público traduz escolhas. Quando recursos diminuem em uma área sensível, a decisão passa a ser interpretada também sob o prisma da prioridade administrativa.
Com o novo ciclo de chuvas em curso e cidades novamente afetadas, a redução da verba executada tende a permanecer no centro da discussão sobre a estratégia do governo estadual para enfrentar um problema recorrente, e cada vez mais previsível, em Minas Gerais.

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