O vídeo que circula nas redes sociais não é apenas mais um escândalo prisional. É um retrato cru, incômodo e revelador de um Estado que perdeu o controle do próprio sistema penal. Presos gravando, editando e divulgando conteúdo de dentro das cadeias não é detalhe, é prova material de que celulares circulam livremente onde jamais deveriam existir.
Mas o mais grave ainda está por vir.
No Ceresp de Juiz de Fora, relatos dão conta de uma realidade que afronta qualquer cidadão que trabalha, paga impostos e convive diariamente com a insegurança: celas equipadas com televisão, consumo de chocolates de marcas consagradas, regalias incompatíveis com o conceito mínimo de privação de liberdade. Não se trata de dignidade humana, trata-se de conforto indevido, tolerado e normalizado.
Enquanto o cidadão honesto enfrenta filas na saúde, salários corroídos, ruas violentas e medo constante, o sistema prisional mineiro parece ter se transformado em uma zona de complacência. A pergunta que ecoa é simples e devastadora: quem governa, afinal, as prisões de Minas Gerais?
A Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) não pode mais se esconder atrás de notas protocolares, sindicâncias eternas ou discursos genéricos sobre “procedimentos internos”. A existência de celulares nas celas não é falha pontual, é sintoma de conivência, fragilidade de comando ou ausência deliberada de controle.
Celular em presídio não serve para entretenimento. Serve para ordenar crimes, ameaçar testemunhas, comandar o tráfico, extorquir famílias e desafiar o próprio Estado. Cada vídeo gravado atrás das grades é, na prática, uma declaração pública de que a autoridade foi substituída pela permissividade.
E quando a permissividade avança, o recado à sociedade é devastador: o crime compensa.
O Governo de Minas precisa explicar por que unidades prisionais oferecem estruturas e benefícios que a maioria da população livre jamais teve. Precisa explicar quem autoriza, quem fiscaliza e, sobretudo, quem será responsabilizado. Porque até agora, o silêncio institucional fala alto demais.
Não se trata de defender abuso, tortura ou ilegalidades. Trata-se de defender o princípio básico da Justiça: pena é pena. Prisão não é hotel, não é estúdio de gravação, não é sala de estar com televisão e chocolate premium.
Quando o Estado abdica da disciplina, ele abandona o cidadão. Quando fecha os olhos para regalias ilegais, ele abre as portas para o crime organizado. E quando tolera o intolerável, torna-se cúmplice do caos que depois diz combater.
Minas Gerais precisa decidir de que lado está: do lado da lei ou do lado da complacência.
Porque hoje, quem assiste a esses vídeos não vê apenas presos com celulares. Vê um Estado acuado,
e uma sociedade cada vez mais refém.

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