A política brasileira sempre teve apreço por gestos simbólicos. Alguns são discretos. Outros, quase teatrais. O episódio mais recente envolve o governador de Minas Gerais, Romeu Zema, e parece se encaixar na segunda categoria.
Após anos defendendo o trabalho remoto como "expressão de gestão moderna, econômica e eficiente", servidores foram orientados a trabalhar de casa em nome da "racionalidade administrativa". A justificativa sempre foi clara: "menos deslocamentos, menos custos, mais produtividade". Um discurso que até ajudou a consolidar a imagem do governador como "gestor austero", alguém mais preocupado com planilhas do que com cerimônias.
Mas, ironicamente, no momento em que o próprio governador prepara sua saída para disputar a Presidência da República, a lógica mudou de repente.
Servidores que vinham trabalhando remotamente foram "convocados", para nao dizer OBRIGADOS a comparecer presencialmente. O motivo não tem relação com metas administrativas, crises operacionais ou necessidade de serviço. Não. Nada disto. A razão é outra: participar da despedida com o governador. Fazer volume. Afinal, é preciso fazer mkt, não é, Sr. Romeu?
A cena, por si só, já carrega um simbolismo difícil de ignorar.
Durante sua gestão, Zema construiu boa parte de sua narrativa política em torno da ideia de "eficiência administrativa". A imagem do empresário que chegou à política para “arrumar a casa”. Um gestor que trocaria rituais políticos por resultados.
Por isso mesmo, a convocação presencial para um evento de despedida causa estranhamento.
A medida obriga servidores a fazer exatamente aquilo que o próprio governo dizia ser dispensável: deslocar-se, interromper rotinas remotas e mobilizar estrutura física... tudo para um gesto de caráter essencialmente simbólico.
Não é exatamente uma contradição inédita na história do poder.
A política tem memória longa, e certos comportamentos parecem atravessar séculos. Há quem enxergue nesse episódio um eco curioso da história de Calígula, o imperador romano conhecido por transformar o poder em espetáculo.
Calígula ficou famoso por gestos extravagantes que buscavam reafirmar sua centralidade no poder, incluindo cerimônias e demonstrações públicas destinadas menos à administração do império e mais à construção de uma imagem pessoal.
A comparação, claro, não implica equivalência histórica. Mas o paralelo serve para ilustrar um fenômeno recorrente na política: quando o poder deixa de ser apenas gestão e passa a exigir encenação.
Na política contemporânea, despedidas raramente são apenas despedidas. Elas funcionam como capítulos finais de uma narrativa pública.
Para quem pretende disputar uma eleição presidencial, como é o caso de Zema, cada gesto pode carregar valor simbólico. Reunir servidores, aparecer cercado por uma estrutura administrativa funcionando e promover um encontro institucional pode ser parte dessa construção.
O problema é quando a encenação contradiz a própria história que se tentou contar.
Se o trabalho remoto foi vendido como sinônimo de eficiência, a convocação presencial apenas para um gesto protocolar levanta uma pergunta inevitável: a austeridade era uma convicção administrativa ou apenas uma narrativa conveniente?
A verdade é que o Governo Zema/Simões tem uma longa tradição de ironias involuntárias. Discursos de austeridade que terminam em cerimônias custosas. Promessas de simplicidade que se encerram em gestos grandiosos.
Nesse caso, a ironia é quase literária.
O governador que transformou o home office em símbolo de eficiência administrativa agora convoca servidores a sair de casa não para trabalhar mais, mas para assistirem à sua despedida. Que bonito, né Sr. Romeu? Vai comer banana com casca e tudo também? Vale a dica, a fim de completar o espetáculo.
No fim das contas, a pergunta que fica não é administrativa. É simbólica:
Se a eficiência sempre foi o valor central, por que exatamente ela precisou ser suspensa justamente no momento do adeus?
Olhando para essa cena, me lembrei de uma das muitas falas egocêntricas de Caligula. Não este, de araque, digo, de Araxá, mas o verdadeiro, o imperador: “Acaba de me ocorrer que basta um gesto meu e as vossas cabeças serão cortadas.”
Dito isto, lá se vão os servidores do estado,rumo aos gabinetes e corredores sem vida da máquina publica, coagidos, motivados pelo medo de "cabeças rolarem"
E durma-se com um Barulho desses.
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