A Zona da Mata mineira voltou a conviver com um roteiro conhecido e doloroso: enchentes, deslizamentos, famílias desalojadas, móveis boiando, histórias soterradas pela lama. E, como manda o script oficial, veio também a visita do governador Romeu Zema.
A presença do chefe do Executivo em momentos de crise é necessária. É simbólica. É esperada. O problema não é ir. O problema é como se vai.
O contraste foi inevitável: de um lado, moradores com os pés afundados no barro; de outro, um governador aparentemente imune àquela realidade física. A tragédia parecia não tocá-lo... nem simbolicamente.
Mas há algo ainda mais incômodo do que a estética da visita.
Dados oficiais apontam que o governo estadual executou apenas cerca de 4% da verba destinada ao enfrentamento de crises relacionadas às chuvas, o que significa que aproximadamente 96% dos recursos previstos ficaram parados. Economizados. Preservados. Intocados.
Enquanto a água avançava, o dinheiro não saía do lugar.
E é aqui que a crítica deixa de ser visual e se torna estrutural.
Se há orçamento para prevenção e resposta a desastres, por que ele não foi plenamente utilizado? Se a região enfrenta, ano após ano, enchentes e deslizamentos, por que a execução orçamentária não acompanha a previsibilidade do problema? Tragédia recorrente exige política permanente, não visita pontual.
A Zona da Mata não precisa apenas de solidariedade protocolar. Precisa de planejamento, execução e presença efetiva. Precisa de obras de contenção, drenagem, reassentamento seguro e resposta rápida. Precisa sentir que o Estado age antes da água subir — e não apenas depois que as câmeras chegam.
Zema caminhou pelas áreas atingidas com a postura de quem observa um cenário, não de quem o enfrenta. Camisa impecavelmente limpa, sem luvas, sem marcas da lama que cobria ruas e casas. Em meio a moradores com os pés afundados no barro e o olhar devastado, o governador parecia atravessar a tragédia como quem visita uma obra em fase inicial: atento, mas intocado.
É claro que governar não se resume a carregar baldes. Não se exige que o governador vire pedreiro, bombeiro ou voluntário. Mas liderança também é imagem. É gesto. É sinalização. E, em momentos de calamidade, a imagem comunica tanto quanto qualquer decreto.
O povo da Zona da Mata não precisa apenas de solidariedade protocolar. Precisa de presença que transpire urgência. Precisa sentir que quem comanda o Estado também sente o peso da situação, ainda que simbolicamente. A política, afinal, é feita de símbolos.
A pergunta que fica não é se houve boa intenção. É se houve compreensão da dimensão humana do desastre.
Em crises assim, líderes mundiais costumam vestir botas, pegar pás, misturar-se à multidão, não por encenação barata, mas porque entendem que a autoridade também se constrói na proximidade. A lama, nesse contexto, não é sujeira: é conexão.
A Zona da Mata precisava de comando, de medidas concretas, de anúncio robusto de recursos, de cronograma claro de reconstrução. Mas precisava também de algo mais simples e talvez mais poderoso: empatia visível.
Governar não é posar para a foto em meio à tragédia. É mergulhar, ainda que simbolicamente, nela. É inclusive, decidir onde cortar e onde investir. Mas quando a economia atinge justamente a área destinada a mitigar tragédias anunciadas, a pergunta deixa de ser técnica e passa a ser moral.
A camisa limpa pode até sair bem na foto. O orçamento parado, não.
Porque quando o líder sai ileso da lama, a sensação que fica para quem perdeu tudo é cruel: a de que o sofrimento é deles, e só deles.
Minas não precisa de visitas coreografadas. Precisa de comando. De prioridade clara. De liderança que compreenda que, diante da lama, neutralidade estética soa como distância política.
E Minas, neste momento, não precisa de um visitante. Precisa de um comandante.
Júlio Costa
Júlio Costa
É empresário, Jornalista e presidente do Grupo JC Brasil, além da AMAF MG e FOP.
Comentários
Para comentar realize o login em sua conta!
Login Cadastre-se