Durante dois mandatos, Romeu Zema repetiu o mantra: "não sou político, sou gestor."
Vendeu a ideia de austeridade, eficiência, planilha na mão e emoção fora da sala. O estado seria administrado como empresa. Sem improviso. Sem populismo. Sem maquiagem fiscal.
E então surge o número: R$ 11,3 bilhões de rombo no caixa no último ano de governo.
Não é figura de linguagem. Não é oposição inflando dado. É saldo negativo no caixa disponível. Em termos simples: o Estado fechou o ano com mais compromissos a pagar do que dinheiro livre para pagar.
A pergunta inevitável é incômoda: que tipo de gestão austera termina no vermelho?
Vamos explicar:
O rombo não significa que “sumiram” R$ 11 bilhões. Significa que o governo encerrou o exercício com insuficiência de recursos disponíveis frente às obrigações de curto prazo. Parte disso vem de despesas rígidas: folha de pagamento, aposentadorias, repasses obrigatórios para saúde e educação. Parte vem do peso histórico da dívida com a União. Parte pode estar ligada a restos a pagar acumulados e frustração de receitas.
Tudo isso é verdade. Mas aqui está o ponto central: nada disso é surpresa.
Ok, a dívida já existia quando Zema assumiu. A rigidez da folha também. As regras constitucionais de gasto não nasceram ontem. O problema é: Se o discurso sempre foi o da competência técnica, da previsibilidade, da responsabilidade empresarial, como se chega ao final de dois mandatos com um buraco dessa dimensão no caixa disponível?
Empresa que termina no negativo não chama isso de “narrativa adversa”. Chama de desequilíbrio.
O governo pode argumentar que o rombo é efeito de heranças fiscais, renegociações de dívida ou ajustes contábeis. Pode dizer que é um problema estrutural do Estado brasileiro. Pode apontar a pandemia, crises econômicas, oscilações de arrecadação.
Mas a promessa nunca foi “farei o possível”. A promessa foi “sei administrar”.
E aqui mora a ironia. O marketing da austeridade foi forte. O discurso de que Minas saiu do caos foi repetido à exaustão. A imagem do gestor técnico, diferente da “velha política”, foi o principal ativo político do governador. Só que números de caixa não respondem a slogans. Respondem a gestão concreta.
Se o caixa fechou negativo em R$ 11,3 bilhões, há três hipóteses:
- A arrecadação foi superestimada.
- O gasto foi mal calibrado.
- O planejamento falhou na execução.
Em qualquer das três, o problema é gestão.
Não se trata de acusar desvio. Trata-se de coerência. Quem constrói a própria imagem sobre eficiência fiscal precisa entregar equilíbrio fiscal. Caso contrário, a narrativa vira propaganda.
O gestor que prometeu planilha termina com cheque especial.
O austero entrega déficit.
O técnico deixa o caixa pressionado.
No fim das contas, talvez a diferença entre político e gestor seja menor do que parecia. Porque, na prática, ambos respondem pelo mesmo resultado: o número no fim do balanço.
E o número, neste caso, não fecha.
Júlio Costa
Júlio Costa
É empresário, Jornalista e presidente do Grupo JC Brasil, além da AMAF MG e FOP.
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