Romeu Zema apareceu em vídeo, peito estufado, frase de efeito ensaiada e olhar de xerife: “Vamos mostrar pra bandidos quem é que manda. Bandido picha, bandido limpa.”
É o tipo de discurso que rende aplauso fácil, curtida automática e compartilhamento em grupo de WhatsApp. Funciona bem no Instagram. Funciona mal na realidade.
Porque o problema nunca foi a tinta na parede. O problema é a tinta grossa da mentira escorrendo do discurso oficial.
O bandido do vídeo não é o bandido do discurso
O governador fala em “bandido” como se estivesse colocando chefes do crime organizado para esfregar muro sob o sol. A cena vende isso. O discurso induz isso. Mas a prática, como quase tudo nesse governo, é outra coisa.
Quem aparece limpando pichação não são presos perigosos, violentos ou ligados a facções. São, em sua maioria, detentos de baixíssima periculosidade, gente que não oferece risco algum à sociedade. Em muitos casos, presos por dívida de pensão alimentícia, que sequer cometeram crime violento.
Ou seja: o Estado escolhe os mais fracos para posar de forte.
Coragem seletiva é covardia institucional
Zema não enfrenta o crime organizado.
Zema não enfrenta milícia.
Zema não enfrenta facção.
Zema enfrenta quem não pode reagir, quem não tem voz, quem já está à margem e quem serve perfeitamente ao enquadramento de câmera.
É fácil posar de durão quando o “bandido” foi cuidadosamente selecionado para não oferecer risco, não gerar reação e não desmentir o roteiro.
Isso não é política de segurança pública. É teatro penal.
A punição como espetáculo
Transformar presos em peça publicitária não é ressocialização. É humilhação encenada. É o uso do sistema penal como ferramenta de marketing pessoal.
O governo não está interessado em reintegrar ninguém à sociedade. Está interessado em produzir imagens fortes, frases curtas e uma narrativa simplista: “nós contra eles”.
Só que essa narrativa só se sustenta se o público não fizer perguntas.
Por que não mostra quem realmente manda?
Se a ideia é “mostrar quem manda”, fica a pergunta que o vídeo não responde:
Por que os verdadeiros líderes do crime continuam mandando de dentro dos presídios?
Por que facções seguem organizadas?
Por que a violência segue alta em várias regiões do estado?
Porque limpar muro dá like. Enfrentar crime estrutural dá trabalho.
O populismo penal como marca de governo
Zema governa como posta: frases duras, ações rasas e profundidade zero. A política vira slogan. A gestão vira encenação.
É o mesmo governo que fala em austeridade enquanto congela direitos de servidores.
O mesmo que posa de gestor moderno enquanto governa com lógica punitiva do século passado.
O mesmo que prefere punir simbolicamente do que resolver estruturalmente.
Não é justiça. É encenação.
O preso vira figurante.
A parede vira cenário.
O governador vira protagonista.
E o público, se não prestar atenção, vira plateia enganada.
Porque não é sobre quem picha e quem limpa.
É sobre quem mente e quem lucra com a mentira.
E nisso, Romeu Zema sabe muito bem quem é que manda.
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